Entre Raízes e Rimas:

o Eterno Recomeço do RAP

Somos como árvores dançando ao ritmo do tambor, nossas raízes fincadas profundamente na história, mas sempre em transformação. No cosmograma bakongo, o sol da vida dá a volta, e a gente gira junto: começo, meio e começo de novo, como se cada nascer fosse remix do mesmo sopro antigo. Nego Bispo nos lembra que não há fim, apenas um retorno constante: a vida é uma jornada em espiral, onde o solo que pisamos hoje é a folha de alguém que se foi ontem, transformando-se na raiz do que somos agora.

Somos raiz ao agarrar a herança da memória, tronco ao enfrentar os desafios diários, resilientes em meio à tormenta, e folha ao nos abrirmos para o mundo, permitindo que o vento compartilhe nossas narrativas. O fruto não é a morte da flor, mas a esperança de continuidade: ele cai, se decompõe, torna-se semente, retorna à escuridão da terra e renasce em outro corpo, em outro tempo. Assim, aqueles que nos precederam não se extinguem, apenas mudam de posição na árvore, da copa para as profundezas, da memória para o instinto.

No universo do RAP, foi assim também: o som de outrora foi raiz, batida autêntica, vinil desgastado, microfone firme na mão de quem semeou versos como quem planta quilombo. O RAP atual é fruto amadurecido, fusão de tradição com modernidade, de relatos da periferia com sabedoria das encruzilhadas, mas já nasce como raiz do RAP futuro. Cada verso cantado no palco, cada batida vibrando nos fones, é folha que um dia se desprende, torna-se solo, torna-se inspiração, torna-se alicerce para que outros manos possam expressar o mundo novamente — e o ciclo se mantém, como uma árvore em constante crescimento.

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Esta obra faz parte do acervo Frestas – Trienal de Artes: do caminho um rezo – Sesc – Sorocaba